Arquivo da categoria: Filosofia

A fantástica matemática da vida

Um ano após a tragédia que atingiu o Japão, ainda nos chegam histórias sobre a maneira peculiar de pensamento do povo japonês.  Foram tão graves os danos causado pelo tsunami à usina nuclear de Fukushima que o  governo do Japão decidiu conceder um trilhão de ienes (US$ 12,6 bilhões) para a Tokyo Electric Power Co. (Tepco), operadora da usina. A Tepco ficará sob controle temporário do Estado japonês enquanto lida com os problemas causados pelo desastre natural e pelo acidente nuclear. O plano de estatização temporária da Tepco prevê que a empresa deve voltar ao lucro em dois anos e trabalha para estabilizar a usina e indenizar dezenas de milhares de vítimas da pior catástrofe nuclear desde Chernobyl.

O engenheiro aposentado Yasuteru Yamada teve ideia quando assistia imagens do desastre pela TV

Logo após o desastre, um grupo de mais de 200 aposentados japoneses se ofereceu para enfrentar a radiação em Fukushima. Em sua maioria engenheiros, queriam substituir trabalhadores mais jovens no perigoso trabalho de manutenção da usina nuclear, já que os reparos envolvem altos níveis de radioatividade cancerígena.

A notícia é antiga, de 31 de maio de 2011, não sei se conseguiram seu intento, já que o governo japonês e a companhia estavam avaliando a proposta . O que nos chama a atenção é a lógica simples e assombrosa. O engenheiro aposentado Yasuteru Yamada, de 72 anos, insiste que o grupo não é suicida. Afirma Yamada:

“Em média, devo viver mais uns 15 anos. Já um câncer vindo da radiação levaria de 20 a 30 anos para surgir. Logo, nós que somos mais velhos temos menos risco de desenvolver câncer”, 

Na contramão do individualismo, os idosos querem ser úteis em seus últimos anos, permitindo que jovens possam chegar à idade deles com saúde.

Leia a matéria na íntegra e assista ao vídeo da reportagem em http://www.bbc.co.uk/portuguese/multimedia/2011/05/110531_fukushima_aposentados_video.shtml

Fontes:
http://is.gd/SnPVXK  

http://is.gd/Airjtp

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Homenagem à um casal deficiente visual

Emocionante a história de Zahra e Pascual,  filhos de pais cegos, que decidem surpreende-los para comemorar suas bodas de prata. Vivem em Granada, Espanha ( 37.176487°, -3.597929°). 

A mãe tem uma deficiência visual de 70 por cento e o pai é completamente cego. Dada a proximidade do 25º aniversário de casamento, os dois jovens decidiram organizar uma surpresa.

O filme conta a verdadeira história de Páscoa e Merche, no dia de seu aniversário. Seus filhos organizaram uma festa para os quatro sentidos restantes que podem ser usados:

1) A Orquestra Sinfônica vai acordá-los com Nessu Dorma de Puccini;

2) São levados a um laboratório de essências e ao campo, para recordar os cheiros de sua juventude;

3) São levados a sua cidade natal, para reconhecer seus vizinhos através do toque e, finalmente,

4) São levados a sentir o paladar da comida em um restaurante famoso, onde são tratados com toda atenção.

“Nossos pais nos ensinaram que há duas maneiras de viver a vida. Ou viver sofrendo com qualquer coisa de que você precisa, queixando-se sobre o que a vida lhe proporcinou ou fazer mais do que seria de se esperar de você.”

Assim nasceu as 4 idéias mostradas no vídeo.
Os filhos elaboraram um projeto, pediram o apoio do produtor, um dos irmãos trabalha na Madrid Films. Daí veio a agência de publicidade McCann-Erikson e Campofrío, que decidiu produzir e patrocinar tudo, inclusive o curta-metragem.

Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=tWIoKcUxTu4&

Esta versão é do comercial que foi ao ar nos cinemas e na televisão, em vários formatos de 2 minutos. Spot Campofrío y los 4 sentidos HD, agência: McCann Erickson, Madrid.

Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=1tbVdZPVqKY

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Bunker Roy: fazendo a diferença na vida de muita gente.

No Rajastão (Rajasthan), na Índia, uma escola ensina pessoas do meio rural, muitos deles analfabetos, a se transformarem em engenheiros solares, artesãos, dentistas e médicos de suas próprias aldeias.
Chama-se Universidade dos Pés-Descalços e o seu fundador,  Sanjit “Bunker” Roy, brâhmane, criado nos melhores colégios e formado pelas melhores universidades, membro da mais alta elite indiana. Cansado de ver a injustiça e pessoas sendo negligenciadas, excluídas e desconsideradas na sociedade, há mais de trinta anos, ele rejeitou a vida privilegiada e foi viver em uma aldeia onde fundou esta “universidade”.

Bunker Roy com o príncipe Charles

Com uma concepção diferente da educação convencional, é a única universidade onde pessoas com mestrado ou doutorado não podem ensinar, como ele diz. Ela ensina crianças, mulheres, pessoas idosas, numa busca de recuperar tradições populares e a sabedoria daqueles que vivem com menos de um dólar por dia e não tem nenhuma escolaridade.

Sua proposta é aproveitar o conhecimento existente nas pequenas comunidades de forma a torná-las auto-suficientes.

Ele fundou a Barefoot College ( 26.653598°, 74.936222°), uma ONG que tem como objetivo resolver problemas nas comunidades rurais, equipando seu povo com as habilidades e o conhecimento necessário para torná-las auto-suficientes e sustentáveis.  Barefoot College  é a única faculdade no mundo construída pelos pobres, para os pobres e gerida pelos pobres.

O colégio segue o estilo de trabalho e estilo de vida de Mahatma Gandhi.

Desde 1972, mais de 20 Faculdades Barefoot foram iniciados em mais de 13 estados indianos. Para orientar os trabalhos, a universidade segue 5 princípios:
1) igualdade: todos os membros são iguais, indiferentemente do sexo, classe, educação ou casta;
2) coletivismo: todos são envolvidos nos processos de decisão;
3) autonomia: o objetivo é fomentar a interação e o trabalho conjunto no desenvolvimento da comunidade;
4) descentralização: o programa está comprometido em favorecer, indiferente a hierarquias, a capacidade de decisão aos locais;
5) simplicidade: a equipe aposta numa vida simples, empenhada em gerar uma comunidade familiar e um criativo e estimulante ambiente.

Identificado pelo ‘’The Guardian’’, em janeiro de 2008 como um dos 50 ambientalistas no mundo que poderia ajudar a salvar o planeta, e em abril de 2010, reconhecido pela revista ‘’TIME Magazine’s’’ como uma das 100 Pessoas mais influentes no mundo, Bunker Roy, hoje compartilha suas experiências em palestras públicas gratuitas que realiza.

Neste vídeo de aproximadamente 19 minutos, ele explica os fundamentos, a história e o resultado desse trabalho, que VALE A PENA CONFERIR.

Vídeo: http://vimeo.com/34484169

Fontes:
http://is.gd/OELCmq
http://is.gd/KZmTld 
http://is.gd/7FBSAQ

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Preconceito – os dois lados da moeda

Ives Gandra da Silva Martins

 O texto à seguir é atribuído a Ives Gandra da Silva Martins, professor emérito das universidades Mackenzie e UNIFMU, da Escola de Comando e Estado do Exército e presidente do Conselho de Estudos Jurídicos da Federação do Comércio do Estado de São Paulo. Não consegui localizar uma prova que tenha sido realmente escrito por ele, tampouco uma declaração dele em qualquer ponto da Internet que negasse tal autoria.

Antes assista ao vídeo, principalmente a segunda parte e veja a hipocrisia do brasileiro:

http://www.youtube.com/watch?v=jPG-N8aiKpQ

Se somos todos iguais perante a Lei, porque criar guetos sociais? O Brasil sempre foi conhecido por não alimentar ódios internos e, agora, há quem odeie porque foi preterido na escolha por um detalhe físico, por um detalhe comportamental, por um detalhe de origem.

Pergunto: é normal duas pessoas  de qualquer sexo se beijarem em locais público? Penso que se deve ter um comportamento adequado a nossa sociedade e deixar os beijos e afetos excessivos para os lugares reservados ou suas casas.

Antes de ter conotação jurídica, Família é um sentimento, uma realidade natural, chegando até o casamento ter status de sacramento para a Igreja Católica. Vivemos em um delicado momento da sociedade onde a família, que é a base da sociedade – art. 226 CF/88, se vê frágil como nunca, bastando observar-se o grande e crescente número de divórcios, crianças mandando em seus pais e os maltratando, drogas e alcoolismo destruindo o cerne das famílias, além de um sem fim de violências de todas as ordens. Não é admissível a intolerância de quem quer que seja, de pessoas que optem pela homossexualidade ou porque são de outra etnia.

Em São Paulo foi aprovado (falta sanção do prefeito) o projeto de lei 294/2005, que institui, no município de São Paulo, o Dia do Orgulho Heterossexual. Em breve a maioria de “incluídos” serão excluídos, para alegria das minorias, cada vez com mais direitos que o cidadão comum, que todos os Brasileiros deveriam ter.

Não sou a favor nem contra, muito pelo contrário… O que me chama a atenção é o fomento da rivalidade e discriminação, cada um que faça da sua vida o que achar melhor, mas sem ofender o direito do outro.

Para lembrar, como toda lei, a do Dia do Orgulho Hétero contém o artigo: “As despesas decorrentes da execução desta Lei correrão por conta das dotações orçamentárias próprias, suplementadas, se necessário”.

Leia abaixo e tire suas conclusões.


      Hoje, tenho eu a impressão de que o “cidadão comum e branco” é agressivamente discriminado pelas autoridades e pela legislação infraconstitucional, a favor de outros cidadãos, desde que sejam índios, afrodescendentes, homossexuais ou se auto-declarem pertencentes a minorias submetidas a possíveis preconceitos.

Assim é que, se um branco, um índio ou um afrodescendente tiverem a mesma nota em um vestibular, pouco acima da linha de corte para ingresso nas Universidades e as vagas forem limitadas, o branco será excluído, de imediato, a favor de um deles. Em igualdade de condições, o branco é um cidadão inferior e deve ser discriminado, apesar da Lei Maior.

Os índios, que pela Constituição (art. 231) só deveriam ter direito às terras que ocupassem em 5 de outubro de 1988, por lei infraconstitucional passaram a ter direito a terras que ocuparam no passado. Menos de meio milhão de índios brasileiros – não contando os argentinos, bolivianos, paraguaios, uruguaios que pretendem ser beneficiados também – passaram a ser donos de 15% do território nacional, enquanto os outros 183 milhões de habitantes dispõem apenas de 85% dele.

Nesta exegese equivocada da Lei Suprema, todos os brasileiros não índios foram discriminados.

Aos “quilombolas”, que deveriam ser apenas os descendentes dos participantes de quilombos, e não os afrodescendentes, em geral, que vivem em torno daquelas antigas comunidades, tem sido destinada, também, parcela de território consideravelmente maior do que a Constituição permite (art. 68 ADCT), em clara discriminação ao cidadão que não se enquadra nesse conceito.

Os homossexuais obtiveram, do Presidente Lula e da Ministra Dilma Roussef, o direito de ter um congresso financiado por dinheiro público, para realçar as suas tendências, algo que um cidadão comum jamais conseguiria.

Os invasores de terras, que violentam, diariamente, a Constituição, vão passar a ter aposentadoria, num reconhecimento explícito de que o governo considera, mais que legítima, meritória a conduta consistente em agredir o direito. Trata-se de clara discriminação em relação ao cidadão comum, desempregado, que não tem este “privilégio”, porque cumpre a lei.

Desertores e assassinos, que, no passado, participaram da guerrilha, garantem a seus descendentes polpudas indenizações, pagas pelos contribuintes brasileiros. Está, hoje, em torno de 4 bilhões de reais o que é retirado dos pagadores de tributos para “ressarcir” àqueles que resolveram pegar em armas contra o governo militar ou se disseram perseguidos.

E são tantas as discriminações, que é de se perguntar: de que vale o inciso IV do art. 3º da Lei Suprema?

Como modesto advogado, cidadão comum e branco, sinto-me discriminado e cada vez com menos espaço, nesta terra de castas e privilégios.

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O autismo de Temple Grandin

Ontem assisti um filme que aborda o tema “Transtornos Globais do Desenvolvimento (TGD) – Autismo”. Fiquei pensando como a comunidade, principalmente a escolar, desconhece os diversos métodos de lidar com a criança portadora de autismo. O filme “Temple Grandin” mostra como o autismo guiou uma jovem americana ao brilhantismo no ramo da pecuária. É uma história real e fascinante.

Temple Grandin, nascida em 29/08/1947 em Boston, Massachusetts, e atualmente é  professora da Universidade Estatual do Colorado, onde ensina o comportamento animal. É  uma das grandes especialistas no manejo de animais para abate, fazendo projetos de matadouros que favorecem o bem estar animal. Ela recebeu seu Ph.D. em Ciência Animal da Universidade de Illinois e publicou livros como Thinking in Pictures.

É um grande defensora dos animais, especialmente dos explorados pela indústria do gado. Ela reformou matadouros e fazendas em todo os Estados Unidos em defesa de uma vida digna e morte sem sofrimento desnecessário dos animais. Considera que as medidas que contribuem para o animal, fazem da indústria uma exploração segura, eficiente e rentável. 

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Temple nasceu autista e seu jeito peculiar de pensar, seu comportamento antissocial e agressivo, eram mal vistos por professores e colegas de escola na infância. Ela tinha dificuldade de aprender certas coisas, porque as coisas para ela seguiam uma lógica particular.  

O filme conta mostra a perspectiva de mundo conseguida através do autismo, como Temple via a realidade e as imagens em sua mente. A atriz Claire Danes ficou irreconhecível para encarnar Temple, recomendo que assista pela tremenda lição que Temple nos oferece sobre as riquezas que podem existir mesmo onde não estamos acostumados a enxergá-las.

Uma frase do do filme ficou gravada em minha mente, ela diz que “É diferente dos outros, mas não inferior”.

Assista alguns trechos no Youtube: 
http://www.youtube.com/watch?v=cpkN0JdXRpM 
http://www.youtube.com/watch?v=TG6UI5BmhuA 

Leia mais em:
http://colunas.epoca.globo.com/menteaberta/2010/08/31/temple-grandin-a-autista-ph-d/
http://www.universoautista.com.br/autismo/modules/works/item.php?id=17 

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Nelson Mandela

Percorri esse longo caminho para a liberdade, tentei não fraquejar; dei passos errados ao longo do percurso. Mas descobri o segredo: que, depois de escalar uma montanha, apenas se descobre que há muitas mais montanhas para subir. Parei aqui para deitar uma olhada à vista maravilhosa que me rodeia, para olhar pra a distância de onde vim. Mas posso descansar somente por um momento, porque com a liberdade vêm as responsabilidades e não me atrevo a demorar, pois a minha caminhada ainda não terminou.
Nelson Mandela

Nelson Mandela completou 93 anos de idade, muitos milhões de pessoas homenagearam o  antigo prisioneiro político que se tornou Presidente e ícone internacional. 

Muitos dedicaram o dia à prática de ações de caridade honrando a contribuição de Mandela para os direitos humanos, cerca de 12 milhões os jovens estudantes, participaram na festa cantando o “Parabéns a você” numa versão especialmente adaptada para a ocasião, antes do início das aulas, nesta segunda-feira (18/07/11), numa ação que foi coordenada pela Fundação Nelson Mandela, governo e outras instituições.

A Fundação tornou público que pretendeu mobilizar toda a sociedade para a promoção da educação, unidade e coesão social em honra de Madiba (o nome por que é conhecido pela sua tribo, Xhosa).

Mandela tornou-se o primeiro presidente negro da África do Sul. Foi eleito em 1994, depois de sair da prisão de Robben Island. Preso sob a acusação de ser o líder do “Umkhonto we Sizwe” braço armado do Congresso Nacional Africano (ANC) e de organizar e levar a cabo atos de sabotagem, esteve 27 anos preso pelo regime segregacionista.

Libertado ao final desse longo interregno, assumiu o seu papel histórico e garantiu a transição para um governo e regime negro na África do Sul. Conquistando a admiração do mundo por ter conseguido sair de um longo período de encarceramento demonstrando uma capacidade por todos salientada de perdão e de união, conseguiu aquilo que antes se considerava impossível, a transformação pacífica do regime do apartheid num regime em que brancos e negros convivem lado a lado e pacificamente.

Razão pela qual nesta segunda-feira, não foram apenas sul-africanas as mensagens de parabéns que Nelson Mandela recebeu. Foram muitos os líderes mundiais que quiseram associar-se à celebração dos 93 anos do Prêmio Nobel da Paz de 1993.

O atual Presidente da República da África do Sul, Jacob Zuma, que agradeceu a Deus a contribuição de Mandela ao seu país natal, dirigiu-lhe uma comunicação especial.

Zuma recordou na sua mensagem que toda a gente soube que a África do Sul seria diferente quando Mandela saísse da prisão.

“Ele mostrou-nos que, apesar da opressão racial divisionista e das dificuldades que esta nação tinha atravessado, não é apenas possível, mas necessário abraçarmo-nos uns aos outros e reconciliar o povo Sul-Africano”, disse Zuma.

Barack Obama, outro homem que conseguiu tornar-se o primeiro presidente negro desta feita nos Estados Unidos, enviou também ele uma mensagem de cumprimentos ao homem que apelidou de “um farol para a comunidade global, e para todos que trabalham para democracia, justiça e reconciliação”.

O dia 18 de julho pela importância de Nelson Mandela não só para o seu país mas também para a comunidade internacional, passou a ser assinalado pelas Nações Unidas como o dia de Nelson Mandela.

Na África do Sul foram muitas as iniciativas levadas a cabo a propósito deste dia tão significativo para todos os cidadãos daquele país africano.

Escolas, orfanatos e clínicas foram limpas e pintadas, comida, roupa, livros e brinquedos foram doados em operações de caridade destinadas a ajudar os mais necessitados.

O Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban-Ki-Moon, tomou o exemplo de Nelson Mandela e apelou ao mundo que ouvisse o apelo de Nelson Mandela para o voluntariado e o apoio aos mais necessitados.

Nelson Mandela tem reduzido ao máximo as suas aparições públicas devido ao estado debilitado em que se encontra. O dia deverá passa-lo com a família, na sua casa em Qunu, mil quilómetros a sul de Joanesburgo.

Fonte:
http://tv1.rtp.pt/noticias/?t=Sul-africanos-comemoram-o-93-aniversario-de-Nelson-Mandela.rtp

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Escutatória

Rubem Alves nasceu no dia 15 de setembro de 1933, em Boa Esperança, sul de Minas Gerais, mais ou menos perto de onde vivo hoje.

Na literatura e na poesia encontrou a alegria, afirma que é “psicanalista, embora heterodoxo”, pois nela reside o fato de que acredita que no mais profundo do inconsciente mora a beleza.

 

Rubem Alves

Após se aposentar tornou-se proprietário de um restaurante na cidade de Campinas, onde deu vazão a seu amor pela cozinha. No local eram também ministrados cursos sobre cinema, pintura e literatura, além de contar com um ótimo trio com música ao vivo, sempre contando com “canjas” de alunos da Faculdade de Música da UNICAMP.
O autor é membro da Academia Campinense de Letras, professor-emérito da Unicamp e cidadão-honorário de Campinas, onde recebeu a medalha Carlos Gomes de contribuição à cultura.

Este texto me fez fazer uma outra associação: a leitura. Quantas vezes fazemos uma “leitura dinâmica” de tudo que nos chega e perdemos a riqueza dos detalhes.

Curso de Escutatória, por Rubem Alves.

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil. Diz o Alberto Caeiro que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma”. Filosofia é um monte de ideias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Aí a gente que não é cego abre os olhos. Diante de nós, fora da cabeça, nos campos e matas, estão as árvores e as flores. Ver é colocar dentro da cabeça aquilo que existe fora. O cego não vê porque as janelas dele estão fechadas. O que está fora não consegue entrar. A gente não é cego. As árvores e as flores entram. Mas – coitadinhas delas – entram e caem num mar de ideias. São misturadas nas palavras da filosofia que mora em nós. Perdem a sua simplicidade de existir. Ficam outras coisas. Então, o que vemos não são as árvores e as flores. Para se ver e preciso que a cabeça esteja vazia.

Faz muito tempo, nunca me esqueci. Eu ia de ônibus. Atrás, duas mulheres conversavam. Uma delas contava para a amiga os seus sofrimentos. (Contou-me uma amiga, nordestina, que o jogo que as mulheres do Nordeste gostam de fazer quando conversam umas com as outras é comparar sofrimentos. Quanto maior o sofrimento, mais bonitas são a mulher e a sua vida. Conversar é a arte de produzir-se literariamente como mulher de sofrimentos. Acho que foi lá que a ópera foi inventada. A alma é uma literatura. É nisso que se baseia a psicanálise…) Voltando ao ônibus. Falavam de sofrimentos. Uma delas contava do marido hospitalizado, dos médicos, dos exames complicados, das injeções na veia – a enfermeira nunca acertava -, dos vômitos e das urinas. Era um relato comovente de dor. Até que o relato chegou ao fim, esperando, evidentemente, o aplauso, a admiração, uma palavra de acolhimento na alma da outra que, supostamente, ouvia. Mas o que a sofredora ouviu foi o seguinte: “Mas isso não é nada…” A segunda iniciou, então, uma história de sofrimentos incomparavelmente mais terríveis e dignos de uma ópera que os sofrimentos da primeira.

Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma.” Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. No fundo somos todos iguais às duas mulheres do ônibus. Certo estava Lichtenberg – citado por Murilo Mendes: “Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas.” Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos, estimulado pela revolução de 64. Pastor protestante (não “evangélico”), foi trabalhar num programa educacional da Igreja Presbiteriana USA, voltado para minorias. Contou-me de sua experiência com os índios. As reuniões são estranhas. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, como se estivessem orando. Não rezando. Reza é falatório para não ouvir. Orando. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as ideias estranhas. Também para se tocar piano é preciso não ter filosofia nenhuma). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito. Pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que julgava essenciais. Sendo dele, os pensamentos não são meus. São-me estranhos. Comida que é preciso digerir. Digerir leva tempo. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se falo logo a seguir são duas as possibilidades. Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava eu pensava nas coisas que eu iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado.” Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.” Em ambos os casos estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.” E assim vai a reunião.

Há grupos religiosos cuja liturgia consiste de silêncio. Faz alguns anos passei uma semana num mosteiro na Suíça, Grand Champs. Eu e algumas outras pessoas ali estávamos para, juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções, não me esqueço da água no chafariz onde as pombas vinham beber. Havia uma disciplina de silêncio, não total, mas de uma fala mínima. O que me deu enorme prazer às refeições. Não tinha a obrigação de manter uma conversa com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Também para comer é preciso não ter filosofia. Não ter obrigação de falar é uma felicidade. Mas logo fui informado de que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: às 7 da manhã, ao meio-dia e às 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci. O lugar sagrado era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. Escuro. Haviam aberto buracos na madeira, ali colocando vidros de várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminado por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo. Uns poucos bancos arranjados em “U” definiam um amplo espaço vazio, no centro, onde quem quisesse podia se assentar numa almofada, sobre um tapete. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio, nuvens escuras cobriam o céu e corriam, levadas por um vento impetuoso que descia dos Alpes. A força do vento era tanta que o velho celeiro torcia e rangia, como se fosse um navio de madeira num mar agitado. O vento batia nas macieiras nuas do pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram. Estranhei. Os suíços são sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava providências. Todos continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Ninguém que se levantasse para dizer: “Meus irmãos, vamos cantar o hino…” Cinco minutos, dez, quinze. Só depois de vinte minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As pessoas estavam lá para se alimentar de silêncio. E eu comecei a me alimentar de silêncio também. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir. Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. E música, melodia que não havia e que quando ouvida nos faz chorar. A música acontece no silêncio. É preciso que todos os ruídos cessem. No silêncio, abrem-se as portas de um mundo encantado que mora em nós – como no poema de Mallarmé, A catedral submersa, que Debussy musicou. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Me veio agora a idéia de que, talvez, essa seja a essência da experiência religiosa – quando ficamos mudos, sem fala. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar. Para mim Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto…

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