O que a gente não inventa, não existe.

Estava agora mesmo assistindo um programa no Canal Brasil (TV via satélite), sobre Ademar Casé. Confesso minha ignorância, mas me atraiu o nome, logo me lembrei da Regina Casé, com quem sempre me diverti observando seus personagens e o talento carismático ao lidar com pessoas.
Tratava exatamente do seu avô, Ademar da Silva Cazé, (1902-1993), radialista brasileiro, pai do diretor de teatro e TV Geraldo Casé e criador da primeira grande atração do rádio no Brasil, o Programa Casé, começou sua carreira vendendo aparelhos radiofônicos de porta em porta.

Não pretendo escrever nenhuma biografia, isto pode se lido nas fontes que cito ao final, mas gostaria de registrar o pioneirismo e iniciativa deste nordestino ilustre, que numa época que hoje nem podemos imaginar como seria, apesar de ter vivenciado ligeiramente algumas coisas de então, soube muito bem ousar. Ousar em acreditar em si mesmo e saber-se capaz de fazer coisas.

Fiquei espantado de não conhecer essa história e creio que pouca gente deve saber desta pessoa simples e importante do rádio e televisão brasileira.

Ademar com apenas 17 anos, foi para Recife com 10 mil réis, nem sei quanto isto representaria, mas era pouco, como não conseguiu emprego rápido, a fome chegou e acabou morando em praças, arrumou um emprego de faxineiro no “Bilhares Recreio”, no mais famoso e aristocrático salão de bilhar de Recife. Lá conheceu o capitão Rogaciano de Mello, aproveitando a oportunidade, Casé falou do seu interesse em ingressar na carreira militar. Logo se viu alistado no 21º Batalhão de Caçadores, dias depois, Casé chegava no Rio de Janeiro com o grupamento militar.

Era 1922, o Rio fervia, 100 anos da independência do Brasil. O país estava vivendo um intenso clima político com a eleição de Arthur Bernardes, o que provocou revoltas e protestos em vários estados. O agrupamento militar com o qual Ademar veio de Recife foi direcionado para a Vila Militar, primeiro regimento de Infantaria, um dos focos de oposição ao então novo presidente Arthur Bernardes.

Resumindo: Casé entra em combate, mas a revolta foi abafada e ele foi preso e levado para São Paulo e depois transferido para a cidade de Rio Claro, dois meses depois, foi posto em liberdade e embarca em navio Lloyd de volta a Pernambuco, mas o seu desejo de vencer na vida, de retornar a capital do país e tentar a sorte na cidade grande, era cada vez maior. Fez alguns bicos, juntou algumas economias e embarcou novamente para o Rio de Janeiro.

No Rio foi vendedor de frutas, depois corretor de imóveis e foi enganado, assim como seus clientes, por uma farsa. Então acabou sendo agenciador de anúncios para várias revistas da época. Até que resolveu ser vendedor de rádio receptores Phillips, coisa nova na época. As vendas eram impressionantes e o diretor comercial da Philips do Brasil quis conhecer pessoalmente quem era aquele vendedor.

Aproveitando sua fama Ademar sugeriu a um dos diretores, o aluguel de um horário no rádio e assim, num domingo 14 de fevereiro de 1932, oito horas da noite, nasceu o Programa do Casé.

Para conseguir realizar um programa  com audiência, Casé precisava de artistas famosos da época. O primeiro programa já foi realizado com grandes nomes, como Sílvio Salema, Nonô, Luís Barbosa, Mário de Azevedo, João Petra de Barros, a Orquestra de Cordas, com a regência do maestro Romeu Ghipsmann. O programa foi considerada um sucesso. Antônio Nássara e Cristóvão Alencar passaram a fazer parte da equipe de Casé. Os programas foram ficando cada vez melhores, nos moldes da BBC de Londres e da norte-americana NBC.

Ademar Introduziu um dinamismo jamais visto nos programas de rádio no Brasil com o BG (Background), uma música de fundo durante os intervalos entre as apresentações,  e em pouco tempo de existência, o programa era o mais ouvido do Rio de Janeiro. Era no microfone de Casé que passavam os maiores artistas da época. Cantar no Casé era motivo de orgulho para todos e o artistas, que passaram a se sentir valorizados e começaram a receber cachês por participarem do Programa, o que resultava em audiência e consequentemente em anunciantes.



Curioso é que Casé nunca gostou de falar em microfones. O rádio que era símbolo de status, tocando apenas óperas e músicas clássicas, se tornou popular, o teatro e o humor foram também dois grandes trunfos nas programações de Ademar.

Entre as dezenas de estrelas que participavam do Casé, estavam Francisco Alves, Noel Rosa, Aurora e Carmen Miranda, Orlando Silva, Zezé Fonseca, Sílvio Caldas, Marília Batista, Pixinguinha, entre outros.

Com uma equipe fantástica de redatores compôs o primeiro jingle da publicidade brasileira, para a Padaria Bragança. O Almirante, que ao lado de Noel Rosa e Braguinha, compunham o  conjunto Bando de Tangarás, passou a dar seu apoio e, com grande espirito empresarial, financeiro, era speaker e  humorista no programa, ajudou o programa Casé ser a verdadeira escola intinerante de rádio no país.

Da rádio Phillips, o programa foi para a Sociedade do Rio de Janeiro e depois para aRádio Transmissora PRE-3 que foi vendida para o Grupo do jornal O Globo. De passagem pela Rádio Cajuti, Casé foi para a Rádio Mayrink Veiga PR9-E, onde permaneceu durante sete anos. Da Mayrink passou para a Rádio Globo, chegando, finalmente, na PRG-3, Rádio Tupi do Rio de Janeiro.

Foi na Mayrink Veiga que o Programa Casé tornou-se ainda mais marcante com uma exploração ainda maior do humor e da teatralização com as radionovelas. Uma grande paixão de Ademar, que no inicio não obteve boas respostas do público, foi a música clássica, mas a insistência e a criatividade de Casé foram responsáveis pela popularização do clássico.

O rádio vivia uma época gloriosa, os cantores de rádio recebiam um tratamento de grandes estrelas. O programa do Casé era a melhor e a mais popular diversão radiofônica dessa época. Jingles, reclames (publicidade) e anúncios fantásticos e criativos marcaram o Casé. Famosas radionovelas, excelentes humoristas e cantores eram os atrativos desse programa que atravessou quase duas décadas se superando.

De repente chega a televisão, foi em 1951, mas Casé, novamente encarou a novidade, montando uma agência de propaganda e foi trabalhar na TV, onde produziu vários programas entre eles, Convite à Música, Show Cássio Muniz, Show Regina, Tele-Semana, Petit Ballet até chegar ao  programa Noite de Gala que deu o ritmo da televisão que temos hoje. Este programa era apresentado por Luís Jatobá e Ilka Soares, na TV Rio, depois nas TVs Tupi e Globo e lançou Flávio Cavalcante como apresentador, também foram apresentadores Tônia Carrero, Ema D’Ávila, Rose Rondelli, Carmem Verônica, entre outros. A melhor produção de TV de Ademar foi possível porque tinha ao seu lado uma grande equipe, dentre eles Carlos Thiré, Sérgio Provenzano, Sérgio Porto, Haroldo Costa e o seu filho Geraldo Casé.

Em 1960, após sofrer um enfarte, Casé abandonou os meios de comunicação, por recomendações médicas, o que não o impediu de abrir outra Agência de Publicidade, Agência Casé, que foi entregue, anos depois, ao seu filho Maurício Casé.

No dia 07 de abril de 1993, aos 90 anos de idade, a história do rádio e da TV, morreu Ademar Casé um dos seus mais importantes e inovadores personagens.

Este documentário que assisti: “Programa Casé, o que a gente não inventa, não existe”, do diretor Estevão Ciavatta, foi lançado em 2010 e, agora, está disponível em DVD. Esse filme sobre o Casé,  é uma glória, uma vitória da pessoa que luta e acredita em si mesmo.

Fontes:
http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Ademar+Cas%C3%A9&ltr=a&id_perso=39
http://grandesnomesradioetv.multiply.com/photos/album/58
http://pe360graus.globo.com/diversao/diversao/cinema/2011/04/08/NWS,531622,2,20,DIVERSAO,884-DOCUMENTARIO-CONTA-HISTORIA-PERNAMBUCANO-MARCOU-RADIO-BRASILEIRA.aspx
http://cinema10.com.br/filme/programa-case—o-que-a-gente-nao-inventa-nao-existe

1 comentário

Arquivado em Curiosidades

Uma resposta para “O que a gente não inventa, não existe.

  1. Creuza

    olá!! tenho lido seus artigos, gosto muito… vc já está em Sampa?
    me ligue dando noticias do tio… abs e obrigada

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