Livro reúne 333 ‘causos’ borgianos

Este meu homônimo nunca me causou problemas, pelo contrário, passei bons momentos lendo seus livros. Livros que nem sempre são fáceis de serem entendidos. O primeiro que li foi Ficções, achei complicado, mas embarquei na história com vontade.

Não tenho todos os livros, mas acho que estou perto de completar a coleção.

Do http://blogs.estadao.com.br/ariel-palacios/livro-reune-333-causos-borgianos/

O
escritor argentino Jorge Luis Borges poderia ter morrido atropelado em
uma rua londrina por uma brincadeira do colega cubano Guillermo Cabrera
Infante nos anos 70. Uma noite os dois caminhavam juntos na direção da
praça Berkeley quando o escritor cubano, suspeitando que o colega
argentino não era um cego verdadeiro, mas apenas um farsante para
“emular Milton e Homero”, decidiu deixar Borges sozinho no meio de uma
rua com intenso tráfego de automóveis. Os táxis e carros esquivavam o
autor de “Ficções” e “O Informe de Brodie”, enquanto este – sozinho – continuava lentamente atravessando a rua. “Borges estava impassível, talvez devido à sua condição de discípulo do (bispo e filósofo George) Berkeley. Isto é, já que ele não via os carros, estes não existiam. Corri para resgatar Borges e o levei a um lugar seguro”, explicou posteriormente Cabrera Infante.

Este causo – junto com outros 332 – foram recopilados pelo escritor e jornalista argentino Mario Paoletti em “O outro Borges – Anedotário completo”
– recém-lançado em Buenos Aires pela editora Emecé. A maior parte dos
“causos” mostram as irônicas opiniões – e atitudes – de Borges sobre
religião, literatura, política e religião, entre vários outros assuntos.
Segundo Paoletti, nenhum outro escritor no mundo hispano-americano
gerou tantos “causos” como Borges. “Não é impossível que isto se transforme em um subgênero literário”, diz.

BLEFE – No livro, Paoletti conta duas cenas vistas
pelo escritor Blas Matamoros nos EUA com Borges. Em uma delas, uma
pessoa diz ao escritor argentino: “Borges, o senhor é um blefe”. Borges respondeu: “sim, mas leve em conta que é involuntário…”.

Na outra cena um estudante contestador grita ao escritor: “você, Borges, está morto!”. Borges retrucou: “é verdade, só existe um erro nas datas”.

DEUS, A VIRGEM E O MOTOR – O editor
polonês-americano Walter Bara, da editora McGraw-Hill conta a yBorges
que havia estado em um avião que quase estatelou-se no chão porque um de
seus motores havia desprendido da fuselagem. No entanto, depois de uma
vertiginosa queda, o piloto conseguiu equilibrar o avião e aterrissar.
Bara cumprimentou o piloto efusivamente. Mas, os outros passageiros
ficaram zangados com ele, já que atribuíam a salvação de suas vidas à
uma medalhinha da Virgem Maria que uma das passageiras pegou em sua
maleta quando o avião caía. Borges ouviu o relato e comentou: “isto
é, Deus havia ordenado que o motor se soltasse e que eles morressem.
Mas, graças a um apelo à Virgem, intervém um subalterno de Deus
(a Virgem em questão) e muda os planos. Como alguém pode pensar assim?”.

Borges empunha um pequeno punhal para uma cena de um documentário rodado nos anos 70 na Argentina. Para ver o trailer desse documentário, “Borges, um destino sul-americano” (no 1:21 min. está a imagem acima), clique aqui.

SINCERIDADE E CALOR – Em um dia de calor sufocante
Borges chega à casa do amigo e escritor Adolfo Bioy Casares, na elegante
rua Posadas, no bairro da Recoleta, para almoçar (costume que manteve
durante décadas, todos os dias). Os almoços eram embalados por conversas
sobre filosofia e literatura. Mas, ao entrar, cumprimenta o amigo e
diz: “o calor é o assunto natural. Sejamos sinceros: falemos sobre o calor”.

LUGAR ERRADO – Adolfo Bioy Casares, Silvina Ocampo
(mulher de Bioy) e Borges vão a um velório. Mas, não encontram a casa. E
de quebra, não lembram do nome do morto. Outro dia, o trio vai a um
lugar onde Borges terá que proferir uma palestra. No entanto, entram,
por engano, na casa errada, onde está sendo celebrado um casamento.
Cumprimentam todas as pessoas e só percebem que a conferência não é ali
quando os noivos aparecem.

SINCERIDADE E ESTADO – Durante uma entrevista à
revista portenha “Siete Días” em 1973 o jornalista conversava com Borges
sobre as modalidades de Estados.

– Sr. Borges, que tipo de Estado desejaria?

Um Estado mínimo, que não fosse notado. Morei na Suíça cinco anos e ali ninguém sabia o nome do presidente.

– A abolição do Estado que o senhor propõe tem muito a ver com o anarquismo.

– Sim, exato, com o anarquismo de Spencer, por exemplo. Mas não sei se somos suficientemente civilizados para chegar ali.

– Acredita seriamente que tal Estado é factível?

– Evidentemente. Mas, uma coisa é verdade: será preciso esperar 200 ou 300 anos.

– E enquanto isso, Borges?

– Enquanto isso a gente se f…

SER OU NÃO SER – O livro conta que em uma ocasião o
poeta Eduardo González Lanuza, amigo de Borges desde a adolescência,
caminhava pela rua Florida, em pleno centro portenho, quando
repentinamente vê o autor de “O Aleph” sozinho, no meio da
multidão que caminha apressada. Borges, cego, estava com sua bengala no
meio-fio, esperando para atravessar a rua. O poeta coloca a mão em cima
do ombro do amigo e diz: “Borges, sou eu, González Lanuza”. Borges gira a cabeça e após uns segundos, responde: “é muito provável”.

GASTRONOMIA – Paoletti relata que em uma entrevista
em Roma um jornalista europeu tentava colocar Borges em uma situação
constrangedora. Mas, como não conseguia, recorreu a uma pergunta que
considerou que seria muito provocante: “em seu país ainda existem canibais?”. Borges, imediatamente, respondeu: “já não existem mais… devoramos todos eles”.

Borges e Beppo. O gato – ao qual o autor dedicou vários poemas –
não era seu, mas sim, de sua empregada, Fanny. Quando Beppo morreu, os
dois o enterraram em um cantinho da praça San Martín, a um quarteirão do
edifício onde Borges morava (na esquina das ruas Maipú e Marcelo T. de
Alvear).

SÉCULO – Um jornalista entrevista Borges em Paris em um estúdio de gravação. Em meio à conversa, o jornalista pergunta a Borges:

– O sr. percebe que é um dos grandes escritores deste século?

Borges fica quieto durante uns segundos e responde:

– É que este foi um século muito medíocre…

METAFORICÍDIO – O livro também conta como Borges um dia foi ao banco, onde uma funcionária lhe disse: “embora eu saiba (de memória) qual é seu saldo bancário, vou verificá-lo, pois não gostaria de dizer uma coisa e que seja outra”. Borges depois relatou ao amigo Esteban Peicovich: “essa senhorita acabou de assassinar a metáfora”.

CASTELO – Paoletti também conta – baseado no relato
do poeta José Bergamin – que nos anos 50 Borges foi à Montevidéu para
uma série de conferências. Mas, antes de iniciar, começou a colocar
sobre a mesa uma pilha de livros. No entanto, ao longo da palestra, não
usou nenhum dos livros ali colocados. Ao terminar a conferência Bergamín
aproximou-se de Borges e perguntou qual havia sido a utilidade de
tantos volumes que não consultou. Borges respondeu: “eu os uso como
ameia”.

Borges, ilustrado pelo cartunista uruguaio Alberto Breccia para o
comic “Perramus”, no qual o escritor envolve-se em uma delirante trama
política-policial de realismo fantástico.

PREMATURA – Anos antes da morte de Borges em 1986 na
Suíça, os jornais franceses, além do New York Times, publicaram a
notícia de que ele havia morrido. Preocupado, o ensaísta Ulysses Petit
de Murat tentou entrar em contato Borges, até que conseguiu encontrá-lo e
confirmar que estava vivo. Murat expressou a Borges seu desagrado pela “notícia apócrifa de sua morte”. Borges corrigiu: “apócrifa não…somente prematura”.

Borges fala sobre “o rigor da ciência”. Aqui.

JLB recita seu poema “Everness”. Aqui.

E o “Poema de los dones”, aqui.

Em uma entrevista Borges sustenta que “o barroco é uma soberba do escritor”. Aqui.

E minha conferência preferida, “A Cegueira”, aqui.

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